Férias de Junho

Férias de Junho

Férias de Junho
Lembranças

Anos 50, a espera pelo dia de deixar o rebuliço da cidade e voltar a saborear a paz do campo era um sonho acordado sonhado a cada dia. Esquecia as agruras da quotidiana vida rural, rememorando apenas os belos momentos de fantasia infantil, às vezes tornados realidade.

Embarcar no trem de vagões de madeira, sentar naqueles bancos de assento e encosto de taliscas, olhar pelas janelas e ver as árvores correndo como se o trem estivesse parado, ouvir o apito triste da máquina: PIUÍ, PIUÍ; ah que saudade! 

Esperava ansioso que a velha “maria fumaça” entrasse numa curva para que eu pudesse admirar aquela gigantesca máquina e a fieira de vagões que a acompanhavam, parecendo uma CENTOPEIA ou um EMBUÁ.  Ao mesmo tempo, o meu coração parecia bater mais forte no compasso das rodas que sobre os trilhos soavam repetidamente: café com pão…café com pão…café com pão…

A estação final marcava também o início de mais uma etapa: Dormir uma noite entre adultos na Pensão de Da. Marcelina, num salão abarrotado de redes e depois embarcar na carroceria do caminhão do Sr. Diomedes rumo a Natuba, para desembarcar na Melancia, onde cruzaria o  rio Paraíba na canoa de Manoel Camilo, mais conhecido como “TORRULECO”. O gosto da aventura me fazia ignorar o perigo dos remansos nas águas turvas e turbulentas.  Ah que aventuras!

Enfim, aquele abraço carinhoso de uma mãe chorosa de alegria, do pai-herói provedor da família e dos irmãos ávidos de saberem das novidades.

Deixara para trás o burburinho da cidade onde tudo tinha dono para respirar no campo aquele ar de liberdade onde  me sentia um pouco dono da natureza: Ali, o cheiro da terra molhada exalado no rescaldo da chuva sobre o solo tórrido era algo inesquecível; o banho no rio entre as piabas, ver o sumiço mágico do SABARARÚ ao agitar a água ou o canto das aves sobre o telhado…esse era o meu mundo mágico.

A paisagem verdejante, típica da época junina, combinava com a alegria contagiante da “matutada” em tempo de colheita que prenunciava grandes festejos.

Na casa paterna tudo me parecia maravilhoso, depois de um semestre solitário circulando entre multidões de desconhecidos. As noites bem dormidas, não importava se eram em redes, em camas “patente” ou de campanha e até mesmo uma esteira de junco ou palha piripiri…quando o pingar das goteiras nas bacias soavam como música calmante.

E no amanhecer agitado…camas sacudidas e aquela voz gritante do pai: “ACORDA POVO”! “POPOPÔ”! “ACORDA POVO”…”POPOPÔ” era o chamado diário para as obrigações domésticas…desagradáveis, mas que hoje me parecem terem sido necessárias. O advir eram os brinquedos improvisados, as saídas fugidias para os campos, as cavalgadas montadas em pelo e as caçadas de estilingue vulgo baladeira.

Vez por outra, um namorico à distância, sem qualquer esperança, só para deixar e levar saudade.

O fim das férias se aproximando…e, já uma semana antes, um coração de mãe tocava alarme e ela era vista chorosa pelos cantos da casa tentando esconder suas emoções de saudade prenunciada. Era mais um ciclo de alegria e tristeza a se renovar.Um adeus sofrido, os rostos desaparecendo, a paisagem ficando para trás e novamente aquela viagem de volta concluída no velho trem… café com pão…café com pão…café com pão. Tudo mudava e só a saudade permanecia.

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